Liber T, ou Thot reinterpretado


Como sabem, estou iniciando, na próxima semana, um Seminário que se propõe a analisar as lâminas do tarot como imagens, encontrando nas próprias, em suas cores, símbolos, formas, traços e estilos uma linguagem que deveria poder se comunicar sozinha, sem maiores explicações.

Minor-Discs-02 Liber TPreparando o material, reencontrei meu tarot Liber T, que é uma variante, um “filho”, uma reinterpretação do Thot Tarot, do Crowley. Esse tarot, que leva a orientação e a assinatura de Roberto Negrini é, na minha opinião, uma bela homenagem ao trabalho da dupla Crowley-Harris. E quando digo bela homenagem me refiro à beleza plástica transmitida pela reinterpretação do artista italiano Andrea Serio.

O primeiro contato que tive com a arte de Serio foi assistindo aos créditos de abertura de um filme chamado “Eros”, onde se reúnem 3 histórias cujo tema é o erotismo. A primeira, dirigida por Michelangelo Antonioni (em seu último trabalho no cinema) tem, em sua apresentação imagens absolutamente oníricas desse artista, acompanhadas por uma das mais belas canções compostas (e interpretada!) por Caetano Veloso.

O primeiro tarot ilustrado por Andrea Serio que encontrei para comprar foi o Dante Tarot que, beleza gráfica indiscutível à parte, causou-me uma das maiores frustrações que tive pois nunca consegui entender as alterações e substituições nos naipes e, consequentemente, relacionar as cartas à simbologia convencional do Tarot. Li e reli o L.W.B. um milhão de vezes, consultei sites, entrei em forums, e fiquei com as mesmas grandes dúvidas. Independente disso, utilizei-o algumas vezes, ao longo dos anos, como objeto de exercício de contemplação.

Quando me deparei com o Liber T, já havia lido diversas críticas, quase sempre negativas ao mesmo. É claro que ninguém precisa de uma reinterpretação do Thot Tarot. Ele, por si só, basta e é um marco entre tantos outros que surgiram antes e depois. Mas penso que, indiferente às intenções de seu idealizador, o estudioso Roberto Negrini, o resultado obtido por Serio justifica, por si só, a presença desse maço de cartas numa coleção.

Ao contrário do Dante Tarot, já usei muito o Liber T em leituras e sempre me pareceu que suas imagens se comunicavam de maneira mais direta e eficaz com os Consulentes. A impressão que tenho dessas leituras é que eles, Consulentes, conseguiam relacionar melhor o que lhes estava sendo dito com as figuras nas cartas à sua frente. Talvez porque Andrea Serio, ao invés de substituir as imagens por outras, parece criar uma divisão nas cartas e acrescentar um “complemento visual” à imagem original. Um apêndice inútil, dirão os puristas. Pode ser. Mas o que sei é que isso já foi feito inúmeras vezes e com maior ou menor sucesso com tarots como, por exemplo, o do Waite. Eu mesmo tenho umas 5 versões (fora os “clones” disfarçados) desse tarot com figuras pintadas por Pamela Smith em que se alteram cores, muda-se o ponto de vista, usa-se montagens fotográficas que são cópias perfeitas das cartas originais, etc

Como sempre digo, não importa o tipo, a procedência, a autoria, o formato, a raridade ou o valor pecuniário das cartas usadas, desde que elas induzam o tarólogo a estabelecer um contato com o seu inconsciente, libere sua intuição e possa realizar uma leitura adequada e satisfatória.

Tirei, ao acaso, uma carta do maço e aí está, ilustrando esta postagem, o 2 de Ouros, Senhor da Mudança Harmoniosa. Com essa carta fica muito fácil observar o estilo do artista, o material usado (sempre pastel sobre papel) e a maneira que ele “relê” a imagem de Lady Frieda Harris e o que ele modifica e acrescenta ao conteúdo imagético da lâmina.

Se a imagem do Thot Tarot privilegia o ouroborus, fazendo que ele ocupe toda a extensão vertical da carta, enfatizando a visualização do “8” criado pela lemniscata formada pela serpente coroada, Andrea Serio parece, com a imagem do selvagem gigante negro auto-decapitado, falar de uma mudança de maneira de pensar, de agir, de conduzir, de se comportar. Enfim, o ato de proporcionar-se, ainda que dolorosamente, uma oportunidade de modificar valores pessoais.

Não vou me estender sobre as possibilidades interpretativas desta carta. Não é o meu objetivo neste post e se alguém se interessar em saber como eu me relaciono com ela, basta procurar postagens mais antigas na seção “Arquivos do Blog”. O que me interessa é a iconografia da carta, os elementos gráficos utilizados, e aí então penso que a imagem é forte o suficiente e que basta a mais rápida observação para entendermos que a figura grande e forte, prepotente e selvagem, representa o aspecto punhalmaterial, o elemento Terra. O punhal pode nos remeter à idéia de corte, de mutilação, de sacrifício, de investigação, de uma operação, de um rompimento, de uma abertura, enfim. E o que é que ele cortou? A cabeça. Uma mudança de forma de pensar a respeito de cabeçaalgo concreto, material. Uma adaptação (com a cabeça sobre os ombros esse gigante não caberia na carta) às condições materiais. E como a cabeça passa a ocupar, agora, um lugar próximo ao coração, é provável que ele nos incite a refletir sobre uma necessidade de um controle da própria vida que reúna e melhor harmonize os planos mental e emocional, o espiritual (cabeça) e o material (corpo).

No peito, um escaravelho, animal solar sagrado, gestado e nascido deescaravelho dentro da própria terra, símbolo da ressureição. E não é verdade que uma mudança de atitude, uma alteração na organização, uma busca de um novo equilíbrio em todos os planos, é um renascer? Uma nova oportunidade que nos concedemos? De uma pequena moedasbolsa que carrega, caem moedas, sementes de uma nova colheita, novos investimentos realizados com o produto de uma estabilidade já adquirida. No ombro, próximo onde se localizava seu ouvido direito, a abertura para o lado direito do cérebro, onde se processam as atividades menos racionais, um pássaro, animal quepassaro voa e que simboliza a comunicação entre o Céu e a Terra. O vôo dos pássaros era observado como uma das possibilidades de prever, de vaticinar acontecimentos. Posso ampliar essa interpretação considerando-o a “voz” psico-espiritual que induziu nosso gigante a experimentar novas alternativa, a buscar reencontrar o equilíbrio entre o trabalho e o prazer, a reestruturar-se, a saber lidar melhor com situações simultâneas, a ter “jogo de cintura”, etc.

A paisagem retrata, ao fundo, 2 elevações de terreno de iguais proporções, mas em cujo topo reside a diferença: numa, uma esfera; na outra, uma forma oblonga, achatada. Um majestoso poente, do qual a figura se afasta com passos firmes por uma estrada sólida, definida e sem acidentes, representa o ocaso de uma situação, de uma experiência, de ouroborosuma forma de agir. A flexibilidade na maneira de pensar, de conduzir-se, de saber intercambiar situações que parecem antagônicas, de manter-se em movimento constante, é reforçada na presença do ouroboros, agora na forma de um “8” horizontal, estabilizado, contendo os símbolos chineses Yang e Yin.

Análise completa? Assunto esgotado? Nunca! Não falei da distribuição espacial, não fiz observações sobre o uso das cores, deixei de lado muito do que lá está e estou certo que se continuar a olhar para a carta irei reescrever partes deste texto, e se permanecer estudando-a, provavelmente o reescreva inteiramente, tão fantástica é a forma que apreendemos e decodificamos imagens.É estimulante saber que a cada vez que me deparar com essa imagem, nela encontrarei outros subsídios, outras analogias, novos recursos que libertarão meu inconsciente, utilizando-a como uma chave lhe dê acesso a melhor se comunicar.

 

Caetano Veloso canta tema de “EROS” sobre imagens de Andrea Serio. Abertura do filme “Il Filo Pericoloso delle Cose”, de Michelangelo Antonioni.

Imagem: “Liber T Tarot”, por Andrea Serio

Video: Abertura de “Eros”, filme de Michelangelo Antonioni, localizado no YouTube:

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