Carta do Dia: 9 DE COPAS


Cups09      Ela nem bem acordara e já arrumava-se frente ao espelho. Duas semanas haviam se passado desde a noite em que ele saiu de casa. Foram dias difíceis em que ela, deprimida, procurou consolo com a mãe, com a melhor amiga, que lhe indicou um terapeuta. Chorou muito, culpando-se por tudo, para momentos depois deixar-se possuir pela raiva e culpar o outro. Sentiu pena de si mesma. Sentiu ódio da mulher que ele disse amar. Sentiu saudade dele. Fisicamente estava bem mais magra. Não tinha vontade de comer. Muita tontura e náuseas. A amiga disse que isso era natural, que ela estava somatizando uma experiência ruim e “precisava regurgitar todo o sofrimento, a decepção contida”. A mãe, que não estava nem aí para essa história de somatização, exigira que ela procurasse imediatamente um médico e fizesse exames. Além disso, que parasse com os calmantes, pois já era tempo e não adiantava acalmar-se de algo que precisava ser vivido e, de uma vez por todas, sepultado. Ela finalmente cedeu e marcou a consulta.

     E os dias foram passando e o mar revolto dos seus sentimentos, aquelas águas escuras de emoções mal direcionadas, contrastavam com o brilhante azul do oceano que a fitava, plácido, convidativo, brincando de fazer espumantes ondas ao quebrar na praia. A vida a chamava à razão. E foi assim que, naquela manhã ensolarada, ela decidiu que iria à praia e passaria algumas horas de sol surfando.

     Enquanto equilibrava-se sobre a prancha, recuperando a antiga destreza, entregava-se à força regenerativa do mar, em seu constante movimento. Procurou não pensar no passado e sim entregar-se de corpo e alma àquelas ondas que, não importa quando longe ela fosse busca-las, elas insistiam a conduzi-la novamente à praia. O sol brilhava alto naquela manhã e a sensação de profunda liberdade, de estar em controle do seu corpo, dos seus movimento, conseguindo harmoniza-los com os das águas, davam-lhe um forte sentido de poder, de segurança, de uma autoconfiança que ela pensava ter perdido.

     Perdeu a noção do tempo e decidiu parar, cansada, porém extasiada, feliz depois de muito tempo. Caminhou até o quiosque para comprar uma água de coco antes de voltar para casa. Aguardou sua vez de ser atendida olhando à volta, à praia colorida pelas barracas, pelas cangas e toalhas, pelos vendedores ambulantes. Respirou profundamente aquele ar que cheirava a pura maresia.

     “E abra o seu coco mais bonito pra essa moça linda aqui ao lado, amigo.”

     Saiu do seu devaneio ouvindo aquela voz que lhe soava conhecida e olhou para o rapaz à sua frente. Não sabia se era com ela ou sobre ela que ele falava e ficou confusa por uns segundos até que ele virou-se para ela.

     “Cara!… Não acredito!… Você?!?… Você aqui!?!”

     O sorriso continuava o mesmo, franco, amistoso, generoso. Os eternos cabelos parafinados estavam mais curtos, mas a pele curtida pelos sóis de muitas praias mundo afora continuava no mesmo tom. Começou a rir, espantada, embaraçada, surpresa. Sim, seu ex-namorado, amigo e professor de surf, campeão internacional estava ali, parado à sua frente, oferecendo-lhe um coco gelado e um sorriso de prazer e alegria.

     O sol estava começando a se esconder atrás das montanhas quando eles perceberam que já era tempo de se despedirem. Haviam contado, ou pelo menos tentado contar, o que viveram nesses anos em que estiveram separados. Ele falou-lhe de lugares exóticos, de areias escaldantes e de ondas gigantes. Ela lhe contou da faculdade e das exposições que participara com seus desenhos e pinturas. Contou-lhe também do emprego como estilista e do prazer que tinha na possibilidade de ver o que desenhava tomar forma e vida no corpo das pessoas que os vestiam. Ele lhe disse dos campeonatos, das experiências com os patrocinadores, dos filmes que participara, do documentário que fizeram a seu respeito para uma televisão japonesa. Ela contou-lhe da oferta que recebera da empresa para passar um ano em Paris aperfeiçoando-se na sua área de estamparia e modelagem. Contou-lhe também que se casara. Ele a ouvia atento e silenciosamente.

     “Acho que faço parte daqueles milhares de casamentos que parecem se dissolver com a mesma velocidade da paixão que os iniciou” _ disse sorrindo tristemente. E continuou: “Estou acabando de mudar para um novo apartamento, só meu, sem lembranças embutidas pelos cantos. Quero estar com os meus livros, meus CDs, assistir a uma porção de vídeos que fui comprando nas viagens e que nunca tive tempo ou paciência para vê-los.”

     Ele sorriu e contou-lhe da fábrica de pranchas de surf que tinha em sociedade com o irmão e dos contratos de empresas de material para esporte que lhe garantiam uma vida bastante confortável agora que ele largara o circuito internacional de campeonatos. Ela o ouvia deliciada, feliz pelo reencontro, pois parecia que os anos não haviam mudado absolutamente nada entre eles. Continuavam gostando praticamente das mesmas coisas, rindo das mesmas bobagens, curiosos pelos velhos amigos em comum, felizes na companhia um do outro.

     O sol já havia sumido no horizonte quando ela despediu-se dele prometendo telefonar-lhe e fazer uma visita à fábrica. Ele disse que ficaria esperando enquanto beijava seu rosto. Pegou sua bike e seguiu pela ciclovia que contornava o calçadão. Ela ficou olhando por uns instantes. No caminho de casa decidiu que no dia seguinte iria conversar na empresa da qual ainda estava em licença. Depois passaria pelo laboratório para pegar o resultado dos exames, marcaria um retorno no médico, telefonaria para a melhor amiga contando sobre o encontro que tivera naquele dia, marcariam um almoço para conversarem, depois, se desse, faria uma visita de surpresa à fábrica dele e… “Puxa, vou ter que levantar ainda mais cedo para conseguir fazer tudo isso”, pensou, e acelerou os passos querendo chegar logo no novo apartamento.

     Quando o 9 de Copas aparece numa jogada de taro, dependendo sempre das demais cartas que também surgem no jogo, da posição das mesmas e da questão proposta pelo consultante, pode simbolizar um período de alegria, contentamento e de muita satisfação. Essa é a carta chamada “do desejo”, ou seja, ela parece surgir sempre que aqueles nossos mais profundo desejos estão se realizando ou pronto para serem realizados. Simboliza também, lealdade, liberdade, sucesso naquilo em que nos empenhamos, conforto material e prazer. A idéia de amor incondicional também está embutida nesta carta, além de bem-estar e saúde. Ganhos materiais e um futuro próspero e brilhante. Tudo parece muito esperançoso. Abundância. Vitória obtida apesar das circunstâncias adversas. Prenúncio de bons tempos pela frente e tempo de celebrar.

     Quando mal dignificada, o 9 de Copas pode estar significando que o Consulente está gastando todo o seu dinheiro, ou abusando das pessoas que foram generosas com ele. Estar se aproveitando da hospitalidade dos outros e acreditar que deve ser cuidado pelos outros. Ganância. Fracasso. Gula, Abuso de drogas, bebida, trabalho, comida, diversão, enfim tudo o que é em exagero. Vaidade. Ser apegado e egoísta.

     Nesta sexta-feira, sob a regência de Vênus, o planeta que simboliza as ligações, a harmonia, a gratificação, e com a Lua na casa de Peixes, é um momento propício para colocarmos todos os nossos planos em ação pois podemos ficar sem tempo para fazer tudo o que pretendemos. Ainda que nem sempre percebamos claramente, podemos aceitar ajuda na realização dos nossos objetivos e principalmente na solução de antigos problemas, pois temos pessoas amigas dispostas a isso. Ter fé e pratica-la, independente da forma e do sistema religioso que adotamos, no momento, como melhor. O importante é sentir-se conectado à sua Divindade interior. Isso é que se chama de harmonia.

     Tenham todos uma alegre, confiante e generosa sexta-feira!

Imagem: TAROT OF THE RENAISSANCE, por Giorgio Trevisan

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