Carta do Dia: 3 DE ESPADAS


 3 de espadas1    Querida Rosa,

     Encontrei essa carta de baralho por acaso, numa dessas minhas andanças revirando velhos sebos em busca de livros e revistas, cartões antigos. Fico feliz quando encontro aqueles com anotações à margem, dedicatórias escritas em letra trêmula de quem não quer rasurar o presente.

     Essa velha carta de baralho, com sua imagem colorida à mão e rasurada pelo manuseio e pelo próprio tempo, eu acabei juntando com aquela nossa conversa sobre estarmos envelhecendo que tivemos, semana passada, no aniversário do nosso amigo.

     Olhando as três “moçoilas” da carta não posso evitar imaginar a ocasião em que a foto foi tirada. Onde estavam? Quando foi isso? Porque estavam com essas roupas, meio caubói meio passeio na fazenda? Quem são? Irmãs? Primas? Amigas? Amigas sim, certamente. Pode-se ver o sorriso de felicidade e o carinho na proximidade com que posaram para o fotógrafo. Joviais, seguras de si, felizes por estarem juntas, naquele instante, compartilhando a sua alegria, afeto, companheirismo que, mal sabiam elas, viria muito tempo depois acabar em minhas mãos e me provocar essa melancolia.

     Estive pensando, nos últimos dias, olhando para essa carta, o quanto vamos deixando de nós pela vida, em papéis, velhos instantâneos, uma medalhinha, um cartão de natal, um telegrama de pêsames, tudo  mais ou menos retidos nos guardados e na memória de pessoas que um dia fizeram parte das nossas relações, com quem dividimos afetos, segredos, esperanças. Com quem rimos e choramos, brigamos e fizemos as pazes. Ou brigamos e… nunca mais fizemos as pazes.

     Quantos parentes, amigos, professores, colegas de escola, companheiros de trabalho e amantes levaram consigo algo nosso e, em troca, nos deixaram as recordações de uma música, um restaurante predileto, um autor que citavam sem parar, o cheiro de um perfume daqueles que nem são mais fabricados, ou um velho poema, de “própria lavra” como se usava dizer, que guardamos através de décadas, nem sabemos direito porque, junto com as velhas fotos. Quantas juras de amor, de amizade eterna, foram trocadas e registradas em kodachrome só para ficarem amareladas e desbotadas com o tempo.

     Também eu, Rosa, guardo essas imagens do meu passado em caixas de papel, em velhos álbuns de retrato (daqueles que ainda tinham a capa em madeira, lembra-se?) São rolos de velhos filmes que nunca mais assistirei, até mesmo porque mofaram dentro de suas latas; santinhos de primeira comunhão com um Jesus de papelão, encostado numa das paredes do estúdio, entregando a hóstia; envelopes com rebuscada caligrafia e enfeitados com selos vindos do Liechtenstein (ah, como eu achava que o Liechtenstein deveria ser o lugar mais fantástico da Terra. Afinal, com esse nome quase impronunciável…). Dentro do pequeno missal revestido em baquelita, imitando madrepérola, uns amores-perfeitos ainda mantém um resto de roxo e de amarelo. Lembro perfeitamente da tarde em que minha mãe os colheu no jardim da casa em que morávamos.

     Há também, nessas caixas já muito gastas, não tanto por serem velhas como eu, mas por terem sido abertas e fechadas milhares de vezes nestes anos, lembranças de pessoas com quem eu nunca mais quis encontrar. De gente que um dia foi tão importante para mim e que, quando tudo se acabou, entre meus cacos recolhi também o quase nada que deixaram para trás e que pudesse me fazer lembrá-las. Estranho , não é? Eu sei que você também deve estar pensando isso. Afinal, se o meu ressentimento, a minha decepção com elas foi assim tão grande, por que mante-las junto a outras recordações tão mais felizes?

     Não sei, minha amiga, não sei explicar. Pelo menos não coerentemente. Talvez eu as guarde como algumas pessoas guardam em vidrinhos de remédio pedras expelidas pelos rins, numa estranha maneira de perpetuar a memória do sofrimento passado. Talvez seja para “balancear” tantas outras lembranças bem mais felizes. Ou talvez eu espere, um dia, realmente perdoar o fato de terem me traído, me decepcionado, me feito chorar desesperadamente, destruindo ilusões, sonhos, fantasias. Muito provavelmente seja para que eu consiga um dia olhar para esses velhos tesouros e reconhece-los todos meus, parte do que eu sou, todos com a mesma importância e valor, ao invés de ficar repetindo, como estou fazendo nesta carta _ “Ah, se eu soubesse naquele tempo o que sei agora”. Coisa de gente rancorosa e que não se perdoa também, não é mesmo, amiga?

     Como é penoso perceber quantas mágoas carregamos pela vida. Velhas feridas que nem mesmo o tempo as faz cicatrizar porque lá estamos, todos os dias, a abrí-las novamente, numa espécie de êxtase masoquista: sofro, logo existo. Triste inversão. Por que não utilizei todos esses anos para refletir a respeito, compreender os pontos de vista, o momento em que vivíamos e aceitar a situação como uma técnica didática, dentre as muitas de que dispõe, que o destino usou para me ensinar algo que me fizesse crescer? Mas não. Foi mais fácil contentar-me com a situação de vítima a transcender a dor.

     Só espero, minha querida, que esses três sorrisos antigos estampados nessa velha carta tenham despertado em mim algo mais do que tristeza, melancolia e solidão. Olho para a alegria registrada em sal de prata nesse pedaço velho de cartolina e aguardo que algo se transforme dentro de mim, curando esse mal crônico através da compreensão e do perdão. Da minha própria absolvição. E, quando alguém, olhando uma dessas fotos que há muito guardo em caixas, me perguntar _ “Quem é?” _ eu consiga dizer, com o coração mais aliviado e sem que a dor de tristes memórias voltem a afligir este velho e safenado coração _ “Ah, essa é Fulana. Fomos grandes amigos, fizemos faculdade juntos. Frequentávamos a mesma turma e nos divertimos muito. Casou-se.  Sabe como é, perdi contato. Nunca mais ouvi falar dela”.

     Espero que você, Rosa, também goste dessa carta, desse 3 de Espadas tão antigo. Que ele lhe inspire lembranças menos lacrimosas que estas minhas.

     Beijos!

 

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