Carta da Semana: O DIABO


   db_ROM-_15_-o diabo   Final de semana, nada para se fazer… que tal uma ida ao shopping center? Só para passear, fazer um lanchinho, ver vitrinas e, quem sabe, comprar uma coisinha, não é mesmo?

     Já trabalhei em shopping centers e, apesar de reconhecer-lhes a grande importância, apreciar o conforto que oferecem e também apreciar estar num lugar com uma razoável segurança, temperatura agradabilíssima, disponibilidade de múltiplas escolhas e atividades num único espaço, ainda assim vejo-os como verdadeiras antecâmaras do inferno. Do meu inferno, é claro.

     Se você conseguir parar um pouco num dos corredores e ficar apenas observando as expressões faciais e as atitudes das pessoas que ali estão você não vai precisar ler esta minha postagem até o final. Você vai entender perfeitamente de que aspecto da idéia de compulsão, obsessão, angústia, desespero, insatisfação, tentação, escravidão, indulgência, sedução e vício eu vou comentar. Sim, é dele mesmo, o grande Mestre das Ilusões, o Diabo.

     Para muitos de nós que fomos criados dentro da tradição Cristã, ele é aquela figura horrenda, flamejante, vermelha, com chifres, cauda e tridente, tantas vezes lembradas nos sermões dominicais e inúmeras vezes representada nos antigos filmes de Hollywood. Digo “antigos filmes” porque hoje, finalmente, os produtores perceberam que ninguém se deixaria seduzir, ninguém cairia nas garras de um ser tão desagradável. Filas se formam nas portas dos cinemas de todo o mundo para assistirem as novas batalhas entre o Bem e o Mal, só que desta vez o Mal, e todo o seu séquito, é belo, sexy, encantador, romântico, malhadíssimo nas academias, usando as griffes da moda, convincente, sem problemas econômicos, enfim, o genro que toda mãe queria ter (desculpem-me a generalização. Isso também é coisa demoníaca).

     O Demonio, não importa como se apresente, é a nossa “sombra”, aquela parte do nosso subconsciente que, de acordo com C. Jung, nos recusamos a encarar. É tudo aquilo que consideramos desprezível em nós e que procuramos de todas as formas negar, esquecendo-nos de que só nos libertamos desses temores e, portanto, da força que eles parecem possuir, quando os vemos de frente, sob a luz clara da razão, buscando-lhes sentido, aceitando-os como parte integrante da nossa personalidade e, a partir dessa conscientização, tendo-os sob controle. Não querer ver essa realidade, é tornar-se prisioneiro de uma ilusão, de uma fantasia, de uma persona que não é a sua, que não se encaixa e nem nunca irá ser capaz de convencer as outras pessoas. Pelo menos não por muito tempo. Essa falta de claridade mental, de busca da luz da verdade, é a escuridão, a caverna, o Hades, as profundezas sombrias, a noite eterna onde o Diabo habita. Lembra-se dos velhos filmes de vampiro onde eles só saíam de seus caixões (nosso subconsciente) à noite? Pintavam e bordavam com tudo e com todos e só voltavam a se esconder aos primeiros raios de sol (a luz da razão)? Aliás, entre réstias de alho, crucifixos, água benta e balas de prata, nada era mais poderoso em sua eliminação do que o Sol. Ou seja, é abrindo os olhos para o real, buscando a verdade, sendo honesto, estando convicto de suas crenças e pontos de vista (tudo depois de bem analisado), não abrindo mão de seus princípios éticos, nem agindo através de subterfúgios, tendo sempre consciência de seus atos e das consequências dos mesmos, abrindo mão do controle sobre as pessoas e também não se deixando influenciar cegamente por elas, é através disso tudo que quebramos as correntes que nos prendem ao que de pior há em nós mesmos e no que o ambiente possa nos oferecer.

     Voltando ao nosso passeio pelo shopping center, é nele que podemos melhor observar nossos impulsos materialistas, até mesmo porque nada lá dentro está a nos inspirar qualquer outra idéia que não seja a de “ter”, de possuir. Já reparou que na grande maioria deles não há janelas ou relógios? E que se houverem escadas-rolantes, elas nunca estão sincronizadas, obrigando-nos a andar bastante entre uma e outra? É exatamente para que percamos a noção de tempo e de espaço. É um ambiente que nos induz a viver uma situação irreal, da qual não temos total controle. E, impulsionados pelos nossos desejos, reforçados pelo nossos egos em busca de eternas compensações, gananciosos e arrogantes que muitas vezes somos (até mesmo porque não sabemos lidar com isso porque não queremos reconhecer essa não-qualidade em nós), caímos nas armadilhas que nos são armadas e que, voluntariamente, usando de nosso livre-arbítrio, escolhemos nos fazer vítimas.

     E daí é um tal de cartão de crédito “estourado”, limite de cheque ultrapassado, pré-datados a perder de vista, duplicatas assinadas, isso sem falar na quantidade de coisas absolutamente supérfluas que acabamos nos endividando só para tê-las. E daí a semana começa com aquela sensação de angústia, de ter feito alguma coisa errada. Ao invés de estarmos felizes com o que adquirimos, satisfeitos em nossas necessidades, seguros de que fizemos o que deveríamos e poderíamos fazer, fica um desespero, um aguardar de um verdadeiro “milagre” que irá nos tirar daquela situação, e acabamos nem aproveitando os benefícios que esperávamos daquele objeto, roupa, perfume, sapato, cosmético, jóia, acessório, etc. Afinal, ele só nos desequilibrou.

     Não vá pensar que eu esteja fazendo uma apologia contra os shoppings centers, galerias, lojas, mercados, camelódromos ou onde mais houver possibilidade de se adquirir algo. Muito ao contrário. Eles existem para nos servir em nossas necessidades e, portanto, sua utilidade já está definida. O que eu abordo neste comentário sobre a nossa Carta da Semana, é o aspecto vicioso, pessimista, negativo, confuso, desesperançoso, ilusório, escravizador, destrutivo, perverso que a nossa própria ignorância em saber lidar com alguns aspectos materiais pode nos induzir. Não é o shopping center que é a morada do Diabo: nós o levamos para passear em seus corredores, lojas, praças de alimentação e áreas de lazer. E quando não o conhecemos bem, quando tememos a sua pseudo-força, quando lhe damos poder tornando-nos submissos aos seus desmandos é que o Mal mostra algumas de suas faces.

     Como controlar, como sobrepujar essas dificuldades? É, sem sombra de dúvidas, nos conhecendo, trabalhando para nossa elevação espiritual, mantendo um perfeito equilíbrio entre o valor que damos à matéria e ao espírito. Nenhuma carta do tarot é a representação do bem ou do mal absolutos. Todas elas tem seus aspectos positivos e nos apontam para outros que devemos compreender, aceitar mas trabalhar para transmutar. Não vamos nos esquecer que o Diabo é o símbolo daquela ambição que nos faz levantar num determinado horário, pegar condução, ir ao trabalho, guardar um dinheirinho todos os meses para adquirirmos aqueles móveis para a casa que estamos pensando em vir a comprar um dia. É o que nos faz, à noite, depois de um dia de muito trabalho, ainda frequentarmos aquele curso de línguas que nos ajudará a galgar uma nova e melhor posição na empresa que nos permitirá vivermos melhor e oferecermos melhores condições à nossa família. Isso é um exemplo de ambição no seu melhor sentido: objetivo, atitude ética, expectativa, força de vontade e trabalho. Quando isso se desequilibra e passamos a ver tudo de forma egoísta, utilizando de mentiras, engodos, “espertezas”, estratégias, dissimulações, atalhos e total ausência de caráter, bom, daí estamos falando de ganância e colocando mais lenha nos fornos do nosso inferno particular.

     Portanto, o Diabo, como Carta da Semana, nos sugere evitarmos nos próximos dias a agirmos sob impulso, ou tomando atitudes precipitadas, evitando a ansiedade, controlando nossos impulsos mais primários, não revidando, não querendo que tudo gire ao seu redor e exista para lhe servir, sabendo abrir mão de algo ou alguém, procurar ser modesto e procurar o equilíbrio em todos os momentos. Como sempre, a meditação é um excelente auxiliar para que nos encontremos conosco e paremos para meditar sobre nossas atitudes, qualidades e defeitos, e, contemplar o Divino que habita em todos nós.

     Desenvolver a auto-confiança (não a arrogância), compreendendo que as experiências anteriores que tivemos com esse Mestre das Ilusões só nos tornaram mais fortes para controlá-lo em outras investidas, é uma sugestão que parece funcionar bem. E, apesar deste Blog não ter nenhuma preferência em termos de práticas religiosas, atrevo-me a sugerir, para aqueles que percebem as mensagens bíblicas como conselhos de caráter universalistas, que meditem sobre o Salmo 23:4, que diz:

     “Ainda quue eu andasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque Tu estás comigo”.

     Uma ótima e muito produtiva semana para todos!

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